quinta-feira, 20 de junho de 2013

MINHA OPINIÃO SOBRE O MPL E OUTROS TEMAS POLÊMICOS

 
A Ágora Pós Moderna 

Marcos Inácio Fernandes*

“Os lugares mais sombrios do inferno são reservados àqueles que se mantiveram neutros em tempos de crise moral.” 

Esta frase está como epígrafe no novo livro de Dan Brown, cujo título é “Inferno”, que comecei a ler. Achei-a pertinente para abrir esse artigo. O capitalismo e suas lideranças mundiais vivem uma crise moral, econômica, social, de valores, entre outras. Na crise do sistema financeiro mundial, que começou com a bolha imobiliária nos EEUU em 2008 foram, prontamente, socorridos com trilhões de dólares dos Estados Nacionais, que socializaram os prejuízos com toda sociedade. Os desdobramentos são conhecidos. Ajustes macroeconômicos, que se traduzem na estagnação do crescimento, falências, desemprego e caos social nas economias e democracias mais pujantes do planeta.
 No Brasil, a crise chegou. Mas, graças ao tirocínio do Lula e suas medidas, ela foi uma “marolinha” . O governo trabalhista não seguiu o receituário do ajuste neoliberal por arrocho salarial, ajuste fiscal, elevação dos juros e desaquecimento da economia e desemprego em massa (como na Zona do Euro)
. É fato que crescemos muito pouco, mas o emprego com carteira assinada aumentou, o salário melhorou e com ganhos reais, a renda está sendo melho rdestribuída, a desigualdade diminuiu, o Estado investe em infraestrutura, diminui impostos, tarifa de energia e vive-se um momento inédito em nossa história, onde três fenômenos ocorrem simultaneamente: DEMOCRACIA, CRESCIMENTO ECONOMICO (com inflação controlada) e DESTRIBUIÇÃO DE RENDA.
 Nada disso sai na grande imprensa, monopolizadas pelos Marinhos, Civitas, Frias, Mesquitas, Saadys e o evangélico bispo Macedo.
 Eles fomentam “crises” sucessivas, diuturnamente, e apostam no caos para tentar desmoralizar os governos trabalhistas de Lula e Dilma. Um dia é a “crise da energia”, no outro, a crise da “inflação do tomate”, a “crise do dólar e dos juros em alta”, a “crise do PAC”, que não deslancha, etc, etc
. É a opinião publicada, que não guarda relação, nem com a opinião pública e nem com a realidade dos fatos.
 Como se sabe, na pólis grega, berço da política e da democracia, quem era cidadão ( apenas uns 10% da população total, pois os escravos as mulheres estrangeiros e comerciantes,não tinham cidadania), por lei, não podia se omitir dos assuntos da cidade. Eles se reuniam na praça (ágora) para discutir e resolver seus problemas sem uso da violência. Era a democracia direta. Era a força das palavras e dos argumentos se sobrepondo à força física e a violência, prevalecendo a vontade da maioria. Esse é o grande tributo da política para a humanidade.
 Hoje, em pleno século XXI, tem-se uma noção, equivocada, que a cidadania se restringe a votar periodicamente para eleger quem vai nos governar e nos representar no parlamento nas três esferas da Federação. Depois, lava-se as mãos, como Pôncio Pilatos, deixando toda a responsabilidade para os políticos com mandato, como se não os tivéssemos escolhidos e como se não fossemos, também, cidadãos e agentes políticos com direitos e deveres de atuar e influir na vida pública.
 O drama é a despolitização de grande parte do nosso povo ( que sempre serviu aos poderosos). A tragédia é delegarmos a nossa soberania de forma tão negligente. A crise é de fato moral, de lideranças em quem se espelhar e depositar confiança e respeito.
 A mais recente ditadura no nosso país, entre outros males, fez um, que considero o mais brutal. Impediu a renovação de lideranças
. As reservas morais da nação estão todos sepultados e um desaparecido. Nos referimos a um Luís Carlos Prestes, Gregório Bezerra, Apolônio de Carvalho, Marighela, Lamarca, Joáo Amazonas, Mário Alves, Pedro Pomar, Teotônio Vilela, Mário Covas, Juscelino, Leonel Brizola, Tancredo Neves e o Dr. Ulysses, que nos legou a Constituiçao Cidadã de 1988.
 Esses são homens verticais, íntegros patriotas, que considero paradigmáticos. Podia-se divergir de suas ideias e ideologias, mas não havia como não respeitá-los.
 Após a ditadura, de liderança política, só despontou o Lula, que entra para a história como o melhor Presidente que esse país já teve. A Marina, em quem votei e trabalhei para elegê-la vereadora, Deputada Estadual e Senadora, bem que podia ser uma reserva moral e alternativa de poder. Entretanto, ao meu ver, cometeu um equivoco ao deixar o PT que ela ajudou a construir desde a dupla militância no PRC (Partido Revolucionário Comunista), que atuava dentro do PT, trocou a Igreja Católica alinhada com a Teologia da Libertação pelos fundamentalistas evangélicos e agora patina para criar uma Rede da Sustentabilidade.
 Ademais, se sente no direito de querer tempo maior de televisão, fundo partidário e outras benesses, que o PT, por exemplo, levou 20 anos para conquistar e com muita luta e sacrifício, como ela própria pode testemunhar com o seu protagonismo. Como diz o Romário: “mal entrou no ônibus e já quer sentar na janela.”
 Acho deplorável a Marina com outros Senadores, irem ao Supremo para impedir o Parlamento de legislar no sentido de melhor disciplinar e moralizar a formação de Partidos. A liminar concedida por Gilmar Mendes, caiu. Vamos acompanhar como fica a discussão do mérito do projeto, que já foi aprovado na Câmara, e vai para o Senado.
 A crise das instituições formais da sociedade (Partidos, Parlamentos, Sindicatos,etc.) é um fato no mundo inteiro. Aqui no Brasil ela é mais aguda por conta das nossas iniquidades históricas.
 Ainda não chegamos ao Estado de Bem-Estar-Social e as poucas concessões que foram conquistadas pelas classes subalternas, nesses 10 anos de governos trabalhistas, (Bolsa Família, PROUNI, PRONAF e outras políticas) ainda não estão consolidadas.
 As elites as combatem diuturnamente. Eles não toleram que um trabalhador viaje de avião, imagine governar o Brasil !!
 Agora, quando os jovens saem às ruas, aos milhares, em São Paulo e outras capitais,reivindicando, primeiramente, o passe livre nos transportes urbanos e contra o aumento de 20 centavos no preço das passagens de ônibus, no que se convencionou chamar Movimento pelo Passe Livre –MPL, eu considero como uma ação política das mais importantes e alvissareiras.
 Tomara que eles peguem gosto com essa experiência e coloquem e pautem a discussão de outros temas relevantes. Dizer que o movimento é apolítico é uma falácia. De fato ele é apartidário e sem lideranças, o que complica as negociações. É um processo novo, repentino com muitos “tons de cinza”, mais do que os 50 do livro, que ninguém se arvora a explicá-lo com nitidez.
 Não deixa de ser uma proeza mobilizar a pequena burguesia em manifestações sucessivas, com essa enormidade de gente, no momento que o país sedia um acontecimento do esporte que é a paixão do brasileiro – o futebol, a Copa das Confederações, que antecede a Copa do Mundo ano que vem aqui no Brasil.
 Quando escrevo já saiu a notícia que os governos de São Paulo e Rio de Janeiro, Governadores e Prefeitos, anunciaram a revogação do aumento das passagens. É uma vitória extraordinária, diria,histórica, que a mobilização de povo nas praças e nas ruas conquistou em tão curto espaço de tempo. Quando essa juventude tomou a iniciativa de acionar as redes sociais para a mobilização para essa causa, via internet, mas, principalmente, se dispôs a não ficar só no virtua le levantou a bunda do computador e foi para praça, foi um movimento político extraordinário.
 O MPL conseguiu ainda botar nos trilhos a guarda pretoriana do Alckmin, fazer o cineasta frustrado e comentarista da Globo, Arnaldo Jabour, se desmoralizar elevar um sabão da Cláudia Riecken, não se deixou instrumentalizar pela imprensa, pelo contrario, sobrou vaias e palavras de ordem para a Globo, Veja e outros veículos de comunicação, que o Jornal Nacional teve que registrar as hostilidades que sofreu
. E agora o PT e outros segmentos organizados ou entram na dança e também vão para as ruas ou a direita, se passando por apartidária, engole o movimento. Como saiu no blog Conversa Afiada do Paulo Henrique Amorim, há muitos “cabos Anselmos” infiltrados. Esse filme nós já vimos e foi de terror.
 Por fim quero comentar uma coisa que vi no Facebook, onde uma foto de Napoleão Bonaparte ilustra um texto que diz que a Revolução Francesa eclodiu por conta do “pão” em referência aos 20 centavos de aumento. Não foi bem assim.
 A burguesia estava plasmando o seu projeto político e de poder, desde o século XVI, com o Renascimento, a Reforma Protestante e a expansão marítima e de mercados. Fizeram duas revoluções na Inglaterra, a Puritana e a Gloriosa. A Revolução Francesa foi o ápice desse processo.
 O folclore político conta que, a Maria Antonieta (depois guilhotinada com o seu marido Luís XVI e cerca de mais umas 20 mil pessoas) teria ironizado e debochado quando lhe disseram: “o povo não tem pão”. Ao que ela replicou, do alto da sua Majestade e real insensibilidade: “então que comam brioches”. Teria sido a gota dágua para a queda da Bastilha.
Aqui, o que não falta é deboche com povo. Vou elencar aqueles que considero mas importantes: 

1 – Mais de 16 milhões de compatriotas vegetarem com menos de 70 reais/mês; 
2 – Entrarmos para o quinto século de latifúndio; 
3 – Mantermos um “latifúndio midiático” (até nos EEUU é proibida a propriedade cruzada dos meios de comunicação. Mas, como todo mundo sabe, os EEUU éum país comunista); 
4 – A maior instância do poder Judiciário, o STF, corroborar a anistia aos torturadores; 
5 – O STF, chancelar a entrega de Olga Benário Prestes aos nazistas; 
6 - Um Ministro do Supremo, que é o guardião da Constituição, dizer em entrevista, na maior singeleza, que: “a ditadura foi um mal necessário” (Ministro Marco Aurélio, referindo-se a ditadura de 64); 
7 –Gilmar Mendes, quando na presidência do Supremo, conceder 2 habeas corpus,em 24 horas, para Daniel Dantas, o banqueiro bandido, segundo o Deputado Protógenes; 
8 – Um processo criminal, ou de outra ordem, levar mais de 10 anos para ser julgado pela Justiça; 
9 – Ter tido no governo FHC um “Engavetador” Geral da República e hoje um Procurador, acusado de prevaricação pelo Senador Collor, que não tomou providências de ofício contra o Senador cassado Demóstenes Torres e seu parceiro Carlinhos Cachoeira; 
10 – A Procuradoria do Estado de Goiás ainda não ter concluído o processo contra o seu membro, o ex-Senador cassado Demóstenes Torres, que continua a embolsar, sem trabalhar, cerca de 30 mil reais/mês; 11 – A doação do patrimônio público no governo FHC, no episódio que ficou conhecido de Privataria Tucana, exposta em detalhes e com provas em livro do jornalista Amaury Ribeiro. A denuncia foi “silenciada” na grande imprensa e não mereceu uma investigação pela Procuradoria Geral da República, que agora se mobiliza contra a PEC 37; 
12 – Considerar a política de transferência de renda do Bolsa Família, como “Bolsa Esmola” e “Bolsa Vagabundo”; 
13 – Não se fazer a Reforma Política e a Reforma Tributária e apenas criticar a carga tributária e não se escandalizar com a sonegação dos impostos dos empresários; 
14 – Ainda considerar válida a sentença do último Presidente da República Velha, Washington Luís, de que “a questão social é um caso de polícia”.

 Fico por aqui, mas tem muito mais. Como diz a frase que abre o artigo, que o lugar mais sombrio do inferno será reservado aos “neutros” e como assinala Max Weber que quem se decidiu pela neutralidade é que já optou pelo mais forte, eu tomo partido. Sou favorável a PEC 37, contra a “cura gay”, pelo Estado laico, pela manutenção da maioridade penal, contra a pena de morte, pela punição aos torturadores, contra a injustiça suprema de condenação, sem provas, de José Serra e José Genoino e Pizzolato, pelo financiamento público, exclusivo, das campanhas eleitorais, pelo voto em lista valorizando os partidos, pela a volta da CPMF, com recursos para a saúde. (só que o “P” de provisório seja de permanente).
 Só para ficar nos mais polêmicos. Quando me der vontade, vou justificar algumas dessas posições e defende-las. Agora vou retornar a minha leitura e escutar o samba de Paulo César Pinheiro que diz assim numa de suas estrofes: "Quando o morro descer e não for carnaval"...
.Espero que seja uma proficia..

 *Marcos Inácio Fernandes é professor aposentado da UFAC e militante do PT.